Agro brasileiro & eleições nos EUA

Agro brasileiro & eleições nos EUA

Por Andrea Cordeiro
Estamos quase reta final das eleições dos EUA e pela relevância deste processo para o mundo todo, eu quero fazer com vocês uma rápida leitura do quadro que temos para as próximas eleições.

Desde o início, as pesquisas mostram que Biden lidera os trabalhos. Nas pesquisas realizadas logo após o primeiro debate a diferença entre ele e Trump, inclusive aumentou bastante chegando a bater entre 8 a 12 pp e agora na reta final, esta diferença está encurtando. Nas pesquisas dos últimos dias, Trump está atrás entre 4 a 6 pp, acelerando na recuperação. E o clima de incerteza toma os mercados mundo afora.

Enquanto Biden tem votos de latinos, mulheres, cidadãos de grandes centros como os da Califórnia, Nova York, Trump conta com o apoio de eleitores conservadores, a típica família tradicional do interior do país e conta com o apoio de grande parte do agro, dentro e fora da porteira.

Se em anos anteriores os norte-americanos não iam as urnas, o voto lá não é obrigatório, este ano os eleitores estão votando em peso. Até ontem dia 28 aproximadamente 73 milhões de cidadãos já haviam votado, presencialmente ou por correio. Os partidos vêm fazendo um chamamento a nação para que votem.

Aqui vale a ressalva para um possível atraso na divulgação dos resultados frente a aumento dos casos de coronavirus. Este atraso pode render especulações nos mercados. Além disso, caso Biden ganhe, um possível não reconhecimento de Trump seria bombástico. Ele que já alertouinclusive diversas vezes que se perder nas urnas é porque o sistema foi fraudulento. E se isso acontecer será péssimo para o país.

E de certa maneira e frente a essas possibilidades é que alguns ajustes de posições vêm sendo promovidos por grandes fundos, investidores e especuladores nestes últimos pregões de mercado financeiro, lá fora e no Brasil, ainda mais porque segunda feira, é feriado aqui o que tornará ainda mais exposto o mercado.

Caso isto aconteça, será a primeira vez na história do país que algo assim aconteceria e isso não passaria em branco no mercado financeiro.

Como já antecipei em outros textos que fiz pra o Noticias Agrícolas e Missão Mulheres do Agro e nos vídeos em meu canal do Youtube, era fato que a campanha esquentaria e que novos temas viessem à tona. Mas como a China vem comprando bastante soja e milho dos EUA, a estratégia para atrair votos acabou caminhando para questões da vida pessoal de Biden e não teve relação com o coronavirus, o que poderia estressar mais ainda as relações comerciais entre os dois países.

Eu percebi que quando eu subi estas matérias, algumas pessoas vieram me perguntar o motivo de eu trazer este tema Eleições dos EUA, para um universo agro no Brasil.

Primeiro de tudo, a gente não pode esquecer que foi durante estes anos de governo TRUMP que o Brasil se consolidou como grande produtor e exportador de alimentos. Nós aqui fomos grandemente influenciados pela condução de uma política extremamente nacionalista de Trump. Lembram do lema da campanha de Trump? Faça a América grande novamente? Pois é, o discurso de campanha saiu dos palcos de campanha e desembarcou no governo desde o início.

Trump Brigou com México que veio buscar milho no Brasil, lembram? Brigou com China que veio comprar alimentos do Brasil.

Uma China que foi impactada por um desabastecimento e umacrise inflacionaria devido a peste suína africana e teve que buscar diversos tipos de carnes e soja. Desde o início da guerra comercial lá em março de 2018, nosso grão vem sendo fortemente disputado pelas empresas chinesas frente a guerra comercial travada pelos 2 países.

Se Trump ganhar mesmo já havendo um acordo com China em andamento é certo que os EUA continuarão a pleitear que as diferenças comerciais diminuam ainda mais e vão querer costurar um rígido acordo de fase 2 e 3 o que abre espaço para momentos de estresse diplomático no estilo do que já vimos acontecer: Situações envolvendo acusações e ofensas via redes sociais.
De um segundo governo Trump podemos esperar também pressão em série para novas cotas para etanol e trigo, mas as chances de acordos comerciais bilaterais e apoio ao Brasil em outras negociações em nível mundial também seriam mais viáveis que em um governo Biden. Existe uma grande expectativa do governo brasileiro para a celebração de um acordo bilateral com os Estados Unidose, envolvendo aço, alumínio, açúcar e etanol.

Se Trump ganhar, para o Brasil será mais do mesmo toma lá, dá cá previsível se é que se pode dizer que algo no governo Trump seja previsível, mas pelo menos para alguns ele já é um parceiro conhecido.

No caso de a guerra comercial desandar ou estressar, torna-se imprevisível qual seria a postura de Trump já reeleito lidar com a competitividade do Brasil. De que foram ele reagiria. Se continuaria com o canal aberto ou engrossaria o tom de voz com o Brasil também.

Com Trump no poder podemos esperar também uma politica cambial mais agressiva. Trump quer sua moeda valorizada frente as demais, o que ajuda a dar competividade extra aos nossos bens exportáveis e como Brasil exporta produtos agrícolas fica fácil entender o quanto influencia. Certo que as importações ficam limitadas já que tudo se torna bem mais caro. E como o agro também importa insumos podemos presenciar num futuro certo desequilíbrio especialmente se os preços dos agrícolas sofram depreciação. Além de fertilizantes, químicos, temos toda uma gama de maquinários, peças, tecnologia importadas que são utilizadas no agro.

E agora no caso de Biden ganhar…

Certamente, de imediato podemos esperar um resfriamento imediato nas relações diplomáticas entre os 2 países, afinal é evidente o apoio do atual governo a Trump, e por isso mesmo passaríamos a ter que nos relacionarmos com um governo oposto. Isso em um primeiro momento pode gerar desconforto e até atrapalhar a visibilidade do Brasil em alguma negociação, mas o que a gente não pode desconsiderar é que existe um laço fortede amizade entre os dois países. São países parceiros e as diferenças tenderão a se ajustar.

Vale lembrar também que o Brasil terá eleições adiante e isso será um outro processo a entrar na equação, mas se Biden ganhar, a expectativa de afrouxamento na política cambial é alta, e aí teríamos que trabalhar pensando em um cenário com dólar mais enfraquecido por questões internacionais, porém não se pode ignorar o viés político e os fundamentos econômicos brasileiros.

Como os governos democratas, caso de Biden, são multilateralistas, é provável que se ele for o vencedor, uma retomada de acordos internacionais envolvendo múltiplos países seja restabelecida. Governos democratas costumam seguir uma linha rumo ao equilíbrio comercial num contexto mais macro. Com Biden eleito, o dinheiro de investidores teria maior possibilidade de circular e com isso voltar para países emergentes como Brasil, e isso dependendo do nosso cenário, arrefeceria a cotação do dólar aqui. Bom, pelo menos esta é a linha de entendimento de muitos analistas internacionais e isso certamente ajuda a fortalecer a economia nacional.

Algo que preocupa o mercado é a idade avançada do candidato: 77 anos o que faria dele, se eleito, o presidente mais velho a ganhar em um primeiro mandato. Antes dele, o mais velho foi o próprio Trump que tomou posse com 70 anos. A idade de Biden motiva questionamentos sobre a vulnerabilidade de seu governo caso algo o afaste da presidência e neste caso a dúvidas se voltam imediatamente àcapacidade de sua candidata a vice presidente, Kamala Harris, que seria a primeira presidente mulher a assumir a Casa Branca.

Bom, logo conheceremos o novo presidente dos Estados Unidos e até lá alguns ajustes nos mercados financeiros acontecerão.  Os candidatos aceleraram nesta fase final e a gente pode ver a campanha pegar fogo nesta retinha final. Vamos ficar de olho no dólar. Um ótimo feriado a todos.

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